Todas as noites, antes de me deitar, escrevo páginas e páginas de texto. Cartas. Para ti. Para que um dia, quando eu tiver coragem de tas entregar, as leias. A todas. Uma por uma. Uma por noite. Quando chego a casa, exausta do meu dia, ainda chamo por ti. Em tempos ia dar contigo na cozinha a preparares o nosso jantar. Ou então deitado na sala à minha espera, para mais uma matiné de filmes românticos. Em tempos, sonhávamos com duas crianças a correrem pela nossa casa. Pela nossa confusão. Em tempos tudo era tão perfeito... Agora estou sozinha. Eu e as tuas marcas que por aqui ficaram. As tuas T-shirts estão ainda dobradas, tal qual as deixaste, na gaveta. Nas gavetas. Porque ocupavas mais espaço que eu nos roupeiros. Dizias que eu era mais pequena e por isso precisava de menos espaço. E eu ria-me. Fazia-te sempre as vontades. Até àquele dia. Discutimos. Por uma razão parva, mas discutimos. Coisa que nem era habitual entre nós. E depois da discussão, partiste sem te despedires de mim. Disseste que ias comprar tabaco e não mais voltaste. Passou uma hora e eu liguei-te. Queria pedir-te desculpa, mas... Ninguém atendeu. Passaram duas, três, quatro horas e eu entrei em pânico. Telefonei ao teu melhor amigo, não sabia nada de ti. Pensava que estavas comigo. Deixei a noite passar e de manhã quando acordei, tinha 3 chamadas perdidas de um número desconhecido. O meu coração ficou apertado. Eram notícias tuas. Eu sabia que sim. Esperei, e não tardou para que telefonassem novamente. Atendi, meia ofegante e perguntaram por mim. Respondi é a própria. E informaram-me que o meu marido se encontrava no hospital local. Que tinha sido atropelado e estava em estado grave. Pediram-me para que lá fosse rapidamente. E eu fui. Peguei no carro e fui. Quando cheguei e perguntei por ti, a médica sorriu e disse-me tem de ser forte... O seu merido não resistiu. Ele faleceu. E eu ? Eu faleci também. E hoje apenas te escrevo cartas, para quem sabe um dia tas entregar. Vou comprar tabaco*

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