Não devia estar aqui. Tenho mil e uma coisas para fazer e um trabalho com base num artigo escrito em Inglês por acabar. Devia estar a fazê-lo, queria eu dizer, mas não posso falhar mais um dia. Não quero voltar a falhar. Quero que saibas que exatamente há uma semana tive de ler umas 10 vezes a mensagem que recebi tua para conseguir entender o que me estavas a querer dizer. Querias dizer que não te sentias bem com a vida que levavas, mas o assunto era de tal forma incómodo que tu própria não sabias como o explicar. Eu estava sentada em cima da minha capa, no jardim ao lado da faculdade. Tinha o meu namorado ao lado e os meus padrinhos à frente. Não esperava aquilo. Não sabia o que fazer ali. Queria a ajudar-te, mas se apareceram tantas perguntas na minha cabeça, imaginava quantas não residiriam na tua... Li mais uma vez para te a certeza de que era mesmo o que tinha entendido e respondi-te com mais perguntas. Sabia que precisavas de te questionar a ti própria, sabia que não tinhas a noção do que estavas a dizer. Ninguém entende porque é que ao fim de mais de 2 anos alguém pensa que pode não viver tão bem quanto aparente, ninguém entende o porquê de passados 2 anos mudares de ideias e quereres que o outro mude também contigo. Eu própria não entendo. Desconfio até que já tenha estado no lugar dele que não é mais cómodo do que o teu, quero acreditar. Soube no momento em que entendi o que realmente me querias dizer que estavas decidida a mudar a forma como até àquele dia tinhas vivido e receei por momentos ter culpa nisso, já to confessei. Nunca senti o que me explicavas, mas já senti o contrário. Sentir que ele me foge por entre os dedos, senti-lo a cada diz que passa mais distante e confrontava-o, perguntava-lhe o que o afastava de mim até ele assumir que não era feliz com a vida que levava, até ele me magoar no meu íntimo mais profundo e me partir o coração num golpe final. Já ouvi palavras muito más, sabes? Já o ouvi dizer que estava farto de mim e que não queria nenhuma rapariga na vida dele, nem tão pouco a mim. Já o ouvi dizer que sou uma merda. Já tive de ouvir muito mais que não vou dizer aqui, mas que foi dito da boca para fora. Que foi depois desculpado com um pedido de desculpas informal e que eu tive de aceitar porque não concebo mais uma vida sem ele. É isto. Passado algum tempo a ideia de teres aquela pessoa ao teu lado é tão familiar e confortável que deixas de conceber a tua vida sem esse apoio. Não é que não o Ame, porque Amo com todas as forças que possuo, simplesmente sei que a dada altura se tornou num hábito. Mas continuo a dizer que é um hábito que Amo. E foi exatamente com isto que sempre te tentei confrontar, tentei que visses ou tentasses perceber se sem ele, sem isso a que inevitavelmente já te habituaste continuaria a haver vida em ti. Percebi que sim. Ou que pelo menos estavas decidida a correr o risco de que tivesse de haver. Meteste-te nela e eu só tive medo que não mais conseguisses sair. A verdade é que tudo o que mudaste em ti me assustou e eu quis agarrar-te e fazer-te ver que não podia ser assim, não podias ser tão radical,não estavas sozinha, porra! Quis fazer-te ver que a tua força estava demasiado alta e que há pessoas que não suportam viver ao lado de alguém tão forte, tão poderosa, tão, de alguma forma, superior. Não quiseste perceber isso e foste até ao fim, até às lágrimas. Até teres toda a mágoa solta de ti própria e ainda assim, não te sentires no teu pleno. Magoaste-o, tenho a certeza. E magoaste-te ainda mais a ti por não teres a certeza absoluta de que estavas a fazer o mais certo. Magoaste-te quando tu própria ouviste o que não querias. Quando sentiste que o esforço que fizeste, quando o facto de teres deixado tudo para trás e agarrado tudo o que ele te dava não era significativo no íntimo dele. Quando percebeste que ele não se sentia responsável pelo teu ato de Amor ao largares o Mundo para te agarrares a ele e acredita, eu conheço essa sensação melhor do que ninguém e quem me dera ter estado nesse metro apinhado para te dar um abraço... Ou talvez até estivesse e não sabia. Sei que podes sentir o teu orgulho ferido no fim disto tudo, mas que a tua consciência finalmente descansou por ter conseguido acabar com a estupidez que foi a vossa loucura. Agora é aguentares o barco porque sem remares, ele não anda... Só espero que não tentes saltar fora, só espero que não te vejas obrigada a nadar contra a corrente mais uma vez. És linda e orgulho-me imenso de toda a força que demonstras ter.

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