Vou contar-te um segredo. Às vezes, desejo ter-te comigo e com ele tal e qual como na semana passada. Desejo ri almoçar com vocês os dois e poder falar, assim, tão naturalmente como aconteceu. Acontecer é um verbo que eu gosto muito, sabes? Porque acontecer é algo super natural... Muito mais do que fazer, construir, exercitar... Acontece e pronto. E morre ali como se nunca antes, noutro tempo, noutro dia, tivesse acontecido. Sofro deste síndrome. É terrível e não sei se é geral, mas apago facilmente acontecimentos bons exatamente pela naturalidade com que acontecem. Andorra é um desses exemplos. Aconteceu tudo no tempo suposto e hoje lembro as coisas como se nunca lá tivesse estado. Não me lembro da sensação, não sei o que senti, de que cor eram isto ou aquilo. É estúpido, mas é assim comigo. Ao passo que tudo o que me aconteça de mal, isso não, isso não esqueço nem por nada. É o caso do intrarail. É verdade. Ele chegou e tudo estava diferente. Haviam passado 9 dias em que mal falávamos, não ouvi tão pouco a voz dele nesse tempo, ao contrário do que havia sido prometido. Mas passou. Depois de eu todas as manhas fazer um risquinho no calendário por faltar menos um dia... Depois de nove risquinhos, ele voltou. Havia tudo acabado, pensava eu, mas a verdade é que estava tudo a começar. As conversas continuavam distantes e eu sabia, sabia que tudo estava mal, mas ele dizia que era sono, cansaço ou nostalgia. Assim que chegou, mudou tudo, parece infantil, mas até o nick do msn ele mudou, vê lá às vidas que isto já não foi... Pensei que era tudo recuperável até aparecer uma tal de Filipa, que fez um Facebook e o adicionou com primeiro amigo. Ele correu a comentar as suas fotografias e eu a ver. E a morrer por dentro. No dia seguinte encontrámo-nos no parque que tão bem conheces. Chorei. Implorei-lhe que me contasse a verdade sobre essa tal Filipa, mas nada me disse. Era uma simples rapariga que havia conhecido. Nesse dia segui para terra do meu pai. Partilhávamos uma pulseira de uma borracha que em tempos esteve na moda. Dizia love e eu notei a falta dela. Dela e do elástico que ele havia levado com o meu perfume. Onde estão? - A pulseira deixei em casa porque as letras estavam a sair e o elástico emprestei a um rapaz e acabei por me esquecer. Engoli. A seco, mas engoli. Afinal, que alternativa tinha eu a isso? No dia seguinte abro o facebook e aparece ela, numa foto com ele, em que dizia qualquer coisa como adorou conhecê-lo e que a pulseira que lhe havia dado iria estar sempre bem guardada. Explodi. Afinal, algum dia teria de ser, certo? Liguei-lhe, enquanto tremia. Ele balbuciou umas coisas sem nexo e admitiu que lhe havia dado a minha pulseira. Disse-me que percebia se eu decidisse acabar ali com tudo, pois agiu irrefletidamente e não pensou que realmente me magoaria e muito. Muito... Mal ele sabia o quão magoada eu estava. Disse-lhe que não iria terminar nada porque eu não tinha de sofrer pelas ações dele, mas que ia falar com ela e falei. Enchi-me de coragem e disse àquela bimba tudo o que havia para dizer. Tudo acalmou e eu pensava que o assunto havia morrido. Bem enganada estava eu, só tinha tendência a crescer. Meados de Dezembro, pouco depois da surpresa dos meus anos. Quis saber a password do facebook dele, ao contrário do que é dito, não acho um abuso de confiança ou de controle, quem não deve, não teme. Ele bateu o pé, mas acabou por ceder e eu cedi também. Não estava em casa, mas mandei-lhe a password por mensagem e ele leu, leu até arranjar alguma coisa com que embirrar. Embirrou até querer. Quis acabar comigo. Disse que eu não nutria nenhum respeito por ele e mais trinta mil coisas. Mantive-me calada, afinal, eu não sabia o que me esperava ainda. Estive uma noite de volta de conversas antiquíssimas e nem me lembrei do amsi importante. A Filipa. Eu que sempre desejei ver do que eles tanto falavam, tinha ali a oportunidade de ouro. E vi, sabes? Vi tudo o que nunca queria ter visto, vi e revi. Era um Domingo de manhã. Antes de tomar banho, lembrei-me de ir cuscar essa conversa e morri mais uma vez, como se fosse possível. Segui como se nada me tivesse afetado, mas fechei a porta da casa de banho e desfiz-me em lágrimas naquele chão que nunca há-de contar nada a ninguém. Porquê eu? E porquê naquela altura, depois de ter suportado tanto? Depois de já tudo ter passado... Assim que te mostrei senti a tua revolta maior ainda que a minha, afinal, sempre foste muito mais racional do que eu. Não queria que o julgasses, só queria que me indicasses um caminho, que me dissesses o que eu tinha de fazer perante aquilo. E tu disseste-me que nós não íamos acabar, mas que eu tinha todo o direito a estar sentida e magoada. Pedi-lhe um tempo. Pedi-lhe que não me pedisse respostas até terça-feira, que seria o nosso reencontro. E assim foi. Depois de muitas lágrimas, de grandes telefonemas e promessas feitas na areia, agarrei-me a ele e jurei estar tudo perdoado. Aquele beijo, foi o melhor que alguma vez me deram e sei que ele nunca me desejou tanto como naquele dia. Ainda nada havia acabado, eu guardei a fotografia no meu telemóvel, para me massacrar a mim própria. Mostrei-ta nos chuveiros do balneário e do auto da tua racionalidade, disseste-me que se realmente queria seguir e ultrapassar aquilo, teria de apagar aquilo do telemóvel e de mim. Não o fiz, se queres que te diga, mas ainda hoje admito que tinhas toda a razão. Mas não fiz porque tenho esta estúpida necessidade de ter acontecimentos palpáveis, talvez pela síndrome de apagar os pormenores. Apaguei no Verão seguinte, quando ele me disse que se eu continuasse a falar daquilo, me deixava. O assunto estava mais que morto, mas eu insistia em querer saber toda a verdade e ele contava-me e eu dizia que não era aquela que queria. Cheguei a meter como nome no meu despertador Não vais mais falar do intrarail, Daniela, e realmente passou. Não esqueci. Não apaguei. Mas passou. E eu nunca me vou esquecer de quem esteve ao meu lado nesses dias e de quem com toda a cabeça que me faltava me indicou o caminho a seguir, Nunca me vou esquecer do quão bem já me fizeste miúda, nunca.

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