É, eu sei o que isso é. Querer arrancar-te todo o sofrimento que te consome, aconteceu-me a mim também. Lembro-me bem do dia em que estava tão envolvida no meu Mundo, a jogar às cartas, diga-se, que não refleti muito sobre onde andarias. Estava de costas para o pátio, estava de costas para a maior parte dos acontecimento e por entre uma jogada ou outra, senti alguém abraçar-me por trás. Alguém ofegante, que não falava. Limitava-se a balbuciar algo demasiado perto do meu ouvido, tão perto que não entendi o que estava a tentar dizer-me. Virei-me e eras tu. Não estavas tão alegre como eu imaginara. Pelo contrário choravas, como nunca havia visto. Deixavas as lágrimas correrem-te mais depressa do que tu corrias. Corrias em direção também a uma casa de banho. Por muito frias que sejam, as casas de banho têm qualquer coisa de reconfortante nestes dias, sabes? Basta veres-te ao espelho no estado deplorável em que estás e perceberes que seja o que for que tenha acontecido, não justifica o teu olhar vazio, o teu derrame de lágrimas, a tua dor materializada. Continuando... Larguei o meu baralho e corri para ti. Não sabia o que havia acontecido, mas sabia que precisavas de algo. Quando cheguei, disseste-me O Tiago, Daniela... O Tiago traiu-me. Não senti nada por tal pessoa. A palavra traição ecoou demasiado alto para me lembrar de que era alguém de quem tu gostavas mesmo muito. Foi pontual. Foda-se, quando é para serem pontuais não são vocês, otários de merda. Sou muito menos racional do que tu, eu sei. Aliás, aposto que a ideia de ir confrontar a outra cabra foi minha. Sempre tive essas ideias peregrinas de confrontar as pessoas com os factos que já conheço como verdadeiros na certeza de que me vão mentir e na ilusão de que creditarei em alguma parte dessa mentira que me conforta. Nada se resolveu como tu querias, mas eu não queria que continuasses coma alguém que foi capaz de te magoar e continuar contigo na esperança de que não soubesses. Não é egoísmo, é querer proteger-te porque olha, eu acho que quem faz uma, faz duas, mesmo que contra mim fale. Isso ficou provado quando mais ingénua do que eu te achava, voltaste à casa onde tão magoado foste. Voltaste para ele e decidiste lutar com unhas e dentes como nunca antes tinhas precisado. E foi aí que percebi a força que tens, a vontade com que lutas por tudo o que idealizas. Força essa que não reconheço no que tens agora, que não sinto nas tuas palavras. Desculpa-me, mas não te sinto apaixonada, não pela vida que levas, mesmo que ela mude como dizes desejar, não sinto que isso te vá fazer mais feliz. Ainda assim, vou estar sempre aqui para ver essa tua força de viver e a garra com que agarras todos os teus objetivos. Tu és um exemplo de alguém que vai à luta e mesmo que saia mazelada continua na sua busca incessante pelo querer mais. És mais ambiciosa do que eu alguma vez irei ser, nunca te importaste demasiado com os outros e isso sempre te permitiu ir mais longe do que todas as outras. Continua assim, mas não te magoes na tua própria força... Eu vou estar sempre aqui, mas não te quero ver cair mais.

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