TUMBLR

quinta-feira, 7 de maio de 2015


Acho que sou uma pessoa demasiado mórbida, sabes? Apesar de temer a morte com todos os medos que possa ter dentro de mim, a morte de pessoas estranhas não me repulsa. Sinto pena, sinto compaixão, mas se vir um acidente olho direta e atentamente para conseguir captar todos os pormenores possíveis e se houver feridos, melhor. Não é um pensamento feliz, mas muitas das vezes é o meu e acho que é por isso que, algures na minha existência, desejei ser médica. Queria ser ginecologista obstetra e ainda o afirmei durante uns anos... Mais precisamente até chegar ao secundário e perceber que não conseguia sequer aproximar-me disso. Ainda assim, continuava a acreditar que iria ter o dom da vida.  Eu queria gerar vida, queria dar a esperança a pessoa e nada melhor do que trazer crianças ao Mundo, segundo consta... É verdade que não tem nada a ver com a área que realmente vim a enveredar, mas é a vida, como se diz por aí. Às vezes, por entre os episódios da Anatomia de Grey, por entre aquela adrenalina que se sente num hospital e que eu dificilmente sentirei na profissão que escolherei, pergunto-me se terei decidido bem. Não que algum dia conseguisse chegar a Medicina, mas há tantos cursos que servem para salvar pessoas e lidar com a experiência da morte, sei lá... Sei que estou feliz no meu curso e vivo bem com a decisão que fiz, mas queria ter experimentado todos os outros, só para ter a certeza de que não era aquilo que eu queria. Só para ter a certeza que iria escolher bem. Lá estou e eu a minha insegurança. Nunca me deixa sozinha, nem quando desejo que fuja para longe como hoje. 
Oh, sabes? No dia em que mandei a candidatura à faculdade, no dia em que senti que estava tudo nas minhas mãos, comecei a chorar compulsivamente. A chorar de uma forma que ninguém entendia, afinal, nada se tinha decidido naquele momento... Mas para mim, a escolha estava feita e jamais engoliria o meu orgulho para dizer que afinal não era bem aquilo, afinal já não era isto. Não que o sentisse, mas se algum dia viesse a sentir... Nunca fui menina de pensar que ao escolher alguma coisa, podia mais tarde mudar... Não, para mim são decisões irreversíveis e disponho-me a lidar com todas as consequências que possam advir daí. Desistir de uma coisa que algures no tempo, achei ser o melhor para mim é que não. Quando saiu a nota do exame de Matemática de segunda fase, não tive reação. Vi um 18,2 na pauta e não quis acreditar que era meu. Logo a seguir, corri a ver a nota dele, mas já era pedir demais. Tinha um 8 redondo, pudesse eu dar-lhe a minha nota... Afinal entrei onde quis sem precisar dela. Vi também a tua nota e soube que assim, sim. Fiquei orgulhosa de ti, por teres mostrado o que valias, e de mim, que nunca duvidei das tuas capacidades, mesmo não te tendo dito nunca nada, sabia que eras melhor que eu. Tenho a certeza que foi neste momento que coloquei tudo em causa, até a minha ida para a faculdade. Não queria ir, se a pessoa mais próxima de mim, não iria. Não queria sentir-me superior de forma nenhuma, não queria que ele invejasse o percurso que eu estava a construir mesmo que em momento algum o tenha deixado sozinho. E foi aí que me fechei em mim própria. Foi aí que tentei não dar nas vistas em sítio nenhum para não o apagar a ele. Não sei se foi a escolha certa, tenho tendência a duvidar de todas as minhas decisões, mas foi a que fiz e se fiz, foi com base em tudo o que se passava na altura, em tudo o que vivia e via. À parte disso, cresci. Porque uma pessoa calada é sempre mais adulta. Não duvides... Uma pessoa contida é sempre tida como mais madura, mais intelectual, é pena. Mas há dois anos eu não era nada assim. Quando sairam os resultados das colocações eu não vi. Recebemos o e-mail no Sábado por volta da hora de jantar, mas eu só soube o resultado no Domingo. Posso explicar o porquê, foi um assunto do coração. Eu precisei de ir à terra do meu pai, mas fui com a minha tia. Chegámos no Sábado e viemos no Domingo. Sabia que as colocações sairiam nesse fim de semana, mas era aquele ou nenhum. Fui, mas prometi à minha mãe que não veria o resultado até chegar a Lisboa e poder fazê-lo com ela. Ela fez a mesma promessa e nenhuma de nós cedeu, apesar de ser praticamente certa a minha entrada. A primeira pessoa a saber foi ele que não aguentou a curiosidade, mas nem por isso se descaiu. A minha tia e o meu primo também correram a procurar, mas eu nunca quis saber. Nem tinha internet, portanto... Por volta das 00:10 a minha mãe telefona-me a dizer que onde entraram algumas pessoas que fizeram questão do dizer logo no facebook e eu pedi-lhe que procurasse pelo teu nome, precisava de saber onde irias ficar. Ela disse-me e eu calculei que tivesse sido a tua primeira opção, afinal és tão decidida como eu. Fiquei feliz por ti, mas nunca te contei que já sabia, nunca insinuei que naquele dia havia procurado por ti. Afinal, tu já não querias saber...

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