Tenho a certeza de que mais ninguém no Mundo me vê desse forma ideal que tu juras ver. Muitas das vezes pensei se seria fraca ao ponto de desistir de tudo, é raro o dia em que não penso se realmente a minha vida deveria ser assim, se realmente era isto que eu estava destinada a ser desde a minha primeira respiração. E se por um lado acredito que somos nós quem desenhamos e decidimos para que destino vamos, que caminho percorreremos; por outro tenho a certeza íntima de que o destino está traçado. Tudo o que iremos receber ao longo da vida está já reservado para nós e é por isso que fico indecisa a cada decisão, é por isso que me torno insegura sempre que revejo o perigo em mim, é por não querer acabar como alguém decidiu, é por querer ser eu a decidir, se é que é possível. Ganho certezas quando vejo acidentes gravíssimos em que as pessoas simplesmente não morrem, carros a arder, capotados, sem se perceber que veículo era na sua origem e a pessoa relativamente bem, mais ou menos pronta para outra. Ganho ainda mais certezas quando contratempos estúpidos matam pessoas, quando um simples descuido leva alguém do pé daqueles que os Ama, porque há sempre alguém que nos Ama. Não sei se alguma vez te contei, mas quando andava na patinagem conheci uma menina com talvez uns 8/9 anos, deve ter à volta de menos 5/6 anos do que nós. Chamava-se Inês e tinha uma família relativamente normal. A mãe dela não era nada simpática, para te ser sincera, ninguém simpatizava muito com ela, mas também não ao ponto de lhe desejar algum mal. Como te disse, era uma família relativamente normal, até ao dia que decidiram ir de férias, umas mini férias na altura da Páscoa. Foram até à terra, pararam em Castelo Novo. Pararam numa rampa muito íngreme ao que consta. Entretanto a Inês decide ir dentro do carro buscar uma caixa com elásticos, aqueles com que há uns tempos se faziam pulseiras. Pensava ela que os elásticos estavam no banco do pendura e entrou, ao reparar que afinal estariam no de trás, passou para esses bancos por dentro do carro e o pior aconteceu. O carro destravou-se e a mãe sem qualquer hesitação atirou-se a ele, agarrou-se à porta e foi cuspida contra uma parede. No fim, o carro descomandado bateu nessa mesma parede e acabou com ela. Foi o fim. Não se sabe ao certo o que aconteceu, não sabemos se foi a pequena Inês que sem querer destravou o carro ou se o travão estava mal puxado e com o movimento deixou o carro andar. Mas sei que foi uma morte estúpida que não tinha de acontecer, não tinha. E sei que se aquela senhora ficou ali naquele dia foi porque tinha que realmente ficar, não há hipótese. E eu, se queres que te diga, tenho muito medo de morrer assim, mas mais do que isso, tenho medo que as pessoas à minha volta morram assim, estupidamente. Porque elas merecem muito mais do que isso, porque eu quero poder despedir-me delas e sentir que fiz sempre, tudo o que pude. Agora já não tanto, mas há uns 3/4 anos todos me viam como uma pessoa feliz e forte. Nunca me ia abaixo porque não tinha sentimentos fortes o suficiente para acontecer. Agora que sei Amar, agora que sinto as pessoas em mim e que percebo que a vida anda depressa demais, sinto o medo a apoderar-se de mim. Sinto que a qualquer momento posso perder as pessoas mais importantes da minha vida e eu não quero, nem sei como lidarei com isso. Vivo apoquentada com a morte dos outros, mas não o digo a ninguém porque é um medo demasiado estúpido. É ter medo de um facto inegável e inevitável. É estúpido. Vivo com medo que o Paulo tenha um acidente, com medo que haja um sismo e que eu não consiga encontrar mais ninguém, nunca mais. Se os meus pais se atrasam um bocadinho à noite e me deixam sozinha em casa, sem telefonar, fico a imaginar o que lhes terá acontecido... O porquê de não virem. Como vês, só muito mais fraca do que qualquer guerreira, sou muito mais inofensiva do que qualquer Mulher com M grande. M de Magda. Não há coincidências, miúda.

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