Não sei há quanto tempo te desligaste do Mundo, mas tens toda a razão quando o achas confuso. Não é só por cá teres chegado há pouco tempo que ele te parece assim, vai ser sempre tal e qual. Não sei quase nada acerca dele porque também eu me tento ausentar na maior parte do tempo. Sempre fui meia alienada e desde que cheguei a um mundo diferente, fiquei cem vezes pior. A verdade é que estou a colher o que plantei, mas olhando para trás, não sei se plantei o que desejava. Eu não queria ser a renegada que a maior parte das vezes se limita a deambular pelos corredores da faculdade. Eu não queria sentir-me mal sempre que o meu namorado demonstra ter vontade de ir e viver, como os que o rodeiam. Não queria sentir-me injustiçada sempre que ele deixa de abdicar de algo por mim, só porque eu estava disposta a fazê-lo por ele. Esse sempre foi um dos meus grandes problemas. O facto de achar que todos estão dispostos a fazer por mim, o que eu estaria por eles. Muitas das vezes, dei a volta ao Mundo por alguém que nem os 100 metros correria por mim. Tantas e tantas vezes dei o melhor de mim a pessoas que se recusaram a dar-me o que quer que fosse, nem a sua pior entranha. Deixei de falar a pessoas que em tempos me chamaram melhor amiga, passo hoje por elas e nem um sorriso eu esboço porque não sinto alegria nenhuma em saber que aquela criatura ainda está viva e ainda se passeia pelas ruas da cidade. Tenho feito coisas que achava impensáveis e descobri que o sabor a risco sempre me atraiu. É, se por um lado, não gosto do imprevisto, por outro sou capaz de arriscar as cartas todas desde que haja a mínima probabilidade de vir a ganhar mais. Sou louca. Louca por tudo.E odeio saber que tudo está cruzado, que a amiga da prima da irmã da minha vizinha conhece a avó da tia da minha colega de turma. Odeio. Quero as pessoas só para mim. Se as Amo com tudo o que têm, mereço tudo o que houver. Isto era o que eu pensava antes de perceber que as pessoas não são o que é suposto, nem tão pouco se esforçam por o ser. Queres saber outra coisa que abomino? As pessoas que erram, que percebem o que está mal e continuam sistemática e deliberadamente a fazê-lo. Não suporto. Talvez pela minha mania da perfeição, pela minha necessidade de repetir procedimentos até à exaustão, até não haver margem de erro. Talvez por eu nunca me ter deparado com um grande fracasso. Quando comecei a tirar a carta receei de imediato a parte prática. Sabia que a teórica era como mais um teste e que a dificuldade seria gerir tudo o que um carro pede em frações de segundos. Eu sabia. Talvez tenha sido esse o momento em que receei mais ser uma vergonha, em que receei não conseguir e pior, desiludir quem, com tanto amor, me havia oferecido aquela oportunidade. A par desta só o meu falhanço redondo a Matemática II. Aquele 2 no exame e o medo de não passar na época de recurso. Era o tudo ou nada. Ou tinha 9,5 ou era mais um ano a fazer aquela cadeira. E o problema nem era o repetir, o chumbar... O problema era saber que ia desiludir as pessoas que mais estão dispostas a Amar-me. E era exatamente isto que eu admirava em ti. A assertividade com que tu fazias cada gesto, cada teste, cada ação. A assertividade com que tu respondias sempre prontamente, a certeza que demonstravas perante todos. Hoje sei que talvez não fosses assim tão segura de ti própria, ou melhor, provavelmente sempre soube. Mas na falta de melhor, eu sempre te admirei e obrigada por isso. Obrigada por me teres dado a motivação de vir a ser assim, como tu. Tão certa.

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